A máfia da blogosfera
16
Mai 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 09:58link do post | comentar

Tenho plena noção de que a educação sexual é essencial para o crescimento saudável. Aliás, só um tonto, deparado com as gravidezes precoces e as doenças sexualmente transmissíveis, pode afirmar o contrário. No entanto, isto não faz com que eu apoie a proposta de criar uma cadeira obrigatória nas escolas para educação sexual. Não apoio porque não se pode retirar aos pais a responsabilidade de decidir sobre o quando, sobre o como e sobre o quê.

Uma boa introdução desta disciplina nas escolas será tornando-a facultativa. Afinal, se é assim tão importante não haverá alminha que não queira lá o seu infante. Desta forma, os pais podem escolher colocar ou não os seus filhos conforme for a sua percepção dos resultados da medida. Pessoalmente, se na escola de um filho meu o professor de Educação Sexual não fosse um bom professor ou se eu considerasse que o programa da disciplina não era adequado gostaria de ter a liberdade de dizer que não queria que ensinassem aquilo daquela forma ao meu filho.

Um disparate autêntico, esse sim sem qualquer base de sustentação, é a distribuição de métodos contraceptivos nas escolas. Isto chamava-se autismo, agora trata-se de alheamento da realidade. A JS ao propor uma coisa destas está a propor dar à escola o papel de centro de saúde. Sim, porque nos Centros de Saúde distribuem-se métodos contraceptivos de forma gratuita e é aí que, a ser oferecidos, devem sê-lo e não numa escola. Já para não dizer que nunca daria a um filho meu preservativos dos centros de saúde, porque a verdade é que o barato sai caro.


Quando me refiro a currículo, refiro-me a conhecimentos que aplicas na tua vida profissional.

Eu defendo que a ES não deveria funcionar como disciplina formal. Não faz sentido. É um tipo de conhecimento que é ridículo ser avaliado em testes. O que é que se avaliava? Para além disso, é absurdo que se obrigue pessoas a saber coisas. Será assim tão difícil de compreender que o colectivo não tem o direito de se intrometer assim na vida privada de cada um?

O modelo que defendo é um de completa autonomia das escolas, uma autonomia semelhante às das universidades. É claro que tem de ser científicamente rigorosa...

Pois, os pais decidirem da educação dos filhos é abjecto, mas o Estado decidir já não. O princípio é o mesmo a diferença substancial, tal como está escrito naquela minha intervenção da Gulbenkian, é que os primeiros conhecem o jovem e o segundo não. A ES tem de ser adaptada às especificidades de cada um!

Sim, acho que as escolas não deveriam ter cantinas nem bares: salas de aula apenas.
O preservativo não é uma ofensa, Stran. É uma questão de compreender a natureza das instituições. Em hospitais, centros de saúde, acho muito bem que se distribua. Na escola não, porque a escola não é feita para isso, não faz sentido. Para além disso eu, enquanto pai, posso não querer que um filho meu tenha acesso a preservativos 'de qualquer maneira', por uma questão de responsabilidade e até porque os distribuidos gratuitamente não prestam.

Eu não disse que o preservativo é um valor. Eu disse que a família transmite valores E, para além disso, serve para os preservativos. É função da família e não de um professor. Não julgues que tenho complexos com preservativos, tenciono comprar preservativos para os meus filhos. É uma questão de não misturar as coisas. A escola tem uma função própria e não é acertado que se mude a sua função ou que lhe sejam trazidas mais funções sem que se analise muito bem os prós e contras. Mesma coisa que o Estado: ao chamar muitas funções para si, as essenciais acabam por ficar descuradas. Mas isso é outro assunto...

A educação para alimentação era, se quiseres, figura de estilo. É uma questão de ensinar aquilo que serve para a vida profissional mais o que não serve para a vida profissional, ou não.

"Quando me refiro a currículo, refiro-me a conhecimentos que aplicas na tua vida profissional"

Bem temos noções completamente diferente de escolas. Mas pegando na tua noção, eu posso ainda argumentar que a matemática é menos necessária para um jornalista como a ES o é para uma sexologa. Então porque é que um deve ser obrigatoria e outra não?


"O que é que se avaliava?"
Como em qualquer outra disciplina: o conhecimento.

"Para além disso, é absurdo que se obrigue pessoas a saber coisas."

Lanço-te o desafio de propores concretamente um modelo de ensino para estarmos a discutir isso. E para mim não é nada absurdo a existência de ensino obrigatorio, pelo menos no mundo real. Num mundo utópico poderia mudar de opinião...

"Será assim tão difícil de compreender que o colectivo não tem o direito de se intrometer assim na vida privada de cada um?"

Mas eu concordo 100% com o que tu dizes. Mas esta não é uma questão de vida privada. Quando me conseguires demonstrar que por exemplo a propagação da Sida (por exemplo, mas consigo encontrar outros exemplos) é algo que só afecta o individuo então poderás ter um ponto a defender, mas enquanto vivermos em sociedade, xistirá sempre coisas que são tema da sociedade e que nos afectam como um todo.

A questão, e é uma questão ideologica, é que ignoras por completo que vivemos em sociedade. Como te disse, se tivesses sozinho numa ilha poderias defender grande parte do que defendes (nesse caso o "colectivo" não fazia nenhum sentido), no entanto na vida em sociedade não faz qualquer sentido.

"É claro que tem de ser científicamente rigorosa..."
E é aqui que começam as contradições que te falei anteriormente. Ou seja defendes uma autonomia cujo ambito seja decidido pelo "colectivo".

"os pais decidirem da educação dos filhos é abjecto, mas o Estado decidir já não"

Por favor não distorças o que eu disse. O que eu considero abjecta é o comportamento de posse como se de um objecto se tratasse. Além disso o Estado não diz ao aluno A que este só pode ser médico como alguns pais fazem com os seus filhos.

"...posso não querer que um filho meu tenha acesso a preservativos 'de qualquer maneira'..."

Primeiro na escola não são distribuido de qualquer maneira, além disso para o teu filho não ter acesso tem de ficar "preso" em casa. E já agora isso funciona também para a informação. Não é por não ter uma disciplina obrigatória que ele não tem acesso à informação, é apenas saber se ele vai ter aceso a essa informação por alguém que sabe ou apenas que ouviu falar...

"ao chamar muitas funções para si, as essenciais acabam por ficar descuradas. Mas isso é outro assunto..."
Ora está aqui uma coisa que concordo contigo, embora tenhamos conceitos diferentes de essenciais.

Bem uma nota final para dizer que, apesar de não concordar com muitas das tuas posições admiro a tua coerência. É um aspecto muito positivo em ti e espero que tenhas paciencia para me aturar. Só neste post é que acho que acabaste por dar uma imagem um pouco enganadora, pois embora eu compreenda que queiras um modelo de ensino completamente diferente do que existe (assim como de sociedade) não percebo porque é que te focaste apenas na ES, pois assim fica a ideia de que és só contra a ES ser obrigatória.



Stran a 18 de Maio de 2009 às 02:09

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