A máfia da blogosfera
25
Mar 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 20:15link do post

Um dia, passeava eu no parque ao pé do sítio onde moro, quando fui abordado por um desconhecido que me via escrever no meu fiel Moleskine. Porque escreves, perguntou o tipo (digam lá que não sei imitar O Mestre), Não sei, respondi eu num misto de assombro e curiosidade pelo que dali viria. Como não sabes, insistiu o homem cujas ramelas e cabelo desgrenhado faziam adivinhar uma vida de rua, daquelas que não desejamos a ninguém. Ora, não sei porque nunca pensei nisso, respondi eu. Então pensa, mas pensa mesmo, sem pressa, essa puta má conselheira. E pensei, pensei no que me levava a escrever. E aquela voz que mais ninguém ouve quando pensamos começou a falar. Falava, falava, mas não dizia nada: parecia ela própria confusa, sem rumo. A ideia começou a construir-se: primeiro com tijolos de lama que, como por magia, se iam transformado em robustos blocos de granito. A sua simplicidade, a da ideia, era quase comovedora. Porque gosto, disse eu ao velho vagabundo com um sorriso indisfarçado nos lábios e no olhar. E é verdade: escrevo porque gosto. Gosto da forma como posso, sem pudor ou constrangimentos, misturar palavras que formam ideias e transmitem sentimentos, sensações. Gosto de me aventurar a imitar os clássicos. Que tal um pensativo cigarro, Carlos? Sabendo de antemão que cópia minha a tão ilustre peito jamais será sequer considerada como tal. Gosto de encriptar o que quero dizer, mais não seja para gritar sem que ninguém oiça o que vivo e sinto. Gosto do verbo, do pronome, do adjectivo, do advérbio e até das proposições, esses clubes restritos dentro do mundo da língua que é a nossa. E gosto de inventar que passeava num parque ao pé do sítio onde moro, quando fui abordado por um desconhecido que, ao ver-me escrever no meu fiel Moleskine, me perguntou porque escrevia, apenas para poder dizer a quem me lê por que escrevo sem fazer do blogue um amontoado de delírios. Apanhado.

É, gosto de escrever sobre nada. E agora que olho para o meu blogue vejo que tenho escrito sobre muita coisa, demasiada: matéria que o esquecimento tratará sem dó nem piedade. Pois que se o que escrevo tem de ser esquecido, ao menos que me dê prazer enquanto não esqueço. Tudo isto para dizer que deixei de querer saber das audiências fáceis, das referências do Público, das referências dos outros blogues ou do raio que o parta. A partir de agora este blogue é meu e para mim. Quem gostar, é convidado a sentar-se a meu lado, mas não no meu lugar.

Primeiro Aniversário: Já vou tarde

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