A máfia da blogosfera
05
Fev 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 22:09link do post

Um dos argumentos que mais vezes é repetido por quem defende a legalização do aborto é o das condições ou falta delas para criar um filho. "Se os pais não têm condições para cuidar de um filho, mais vale que façam um aborto". Dito de outra forma, que esta é demasiado eufemística, "É preferível matar uma criança a não lhe dar uma vida de acordo com os padrões da sociedade para dignidade". E não estou a ser demagógico ao dizer que se trata de matar uma criança, já o justifiquei no outro post sobre o assunto. Ora, o que é que me faz considerar que este é um mau argumento para justificar a prática do aborto?

 

Como são várias as razões, vou enumerá-las.

 

1. Quem utiliza o argumento em cima descrito faz uma coisa muito simples: coloca o direito à dignidade acima do direito à vida. É aqui que reside o erro principal. Como dificilmente olhamos para um feto como um ser vivo (na minha opinião, porque não temos verdadeiro contacto com ele), desprezamos o direito à vida e "fingimos" que apenas está em cima da mesa o direito à dignidade. Penso que é óbvio que estamos na presença de uma confrontação entre os dois. Ora, perguntemo-nos sobre a definição de "dignidade". Se calhar em Portugal, uma vida com dignidade é aquela em que temos uma casa, comida na mesa e um mínimo de rendimento que nos permita viver. No entanto, se olharmos para um país africano, o que é que por lá se considera dignidade? Muito menos que isto. O conceito de dignidade é do mais subjectivo que pode haver, porque cabe a cada um a avaliação da sua própria dignidade. Ora, se não damos oportunidade ao feto de viver a vida que o espera, como é que podemos dizer que ele não a vai achar merecedora de ser vivida? Mesmo com todas as restrições que possa vir a ter? Por outro lado, parece-me evidente que o direito à vida se sobrepõe ao direito à dignidade, pelo simples facto de que se eu viver posso avaliar se a minha vida vale ou não a pena de ser vivida e, caso considere que sim, continuar a vivê-la, caso considere que não, pôr-lhe termo.

 

2. Para revelar o absurdo do argumento, vou dar-vos um contra-exemplo. O que aqui está colocado é que caso os pais não tenham capacidade de sustentar uma criança, mais vale que a matem (ou que a impossibilitem de viver, como quiserem). Imaginemos agora que um pai e uma mãe "permitem" que o seu filho nasça: têm uma vida estável e podem propiciar-lhe algum conforto. Quando a criança tem cinco anos, uma catástrofe familiar abate-se sobre o seu agregado e os três têm de ir morar para a rua e pedir esmola. Sem rendimento, sem casa, sem comida, a vida da criança fica completamente instável. Como os pais se reservam o direito de decidir quando é que a vida do filho vale ou não a pena ser vivida, decidem que mais vale matarem a criança de cinco anos a deixarem-na viver naquelas condições. Alguém aceitaria isto?

 

3. Por fim há a questão da responsabilidade. Em português daquele falado pelos mais velhos, "quem não tem condições que as arranje", ou seja, quem fez um filho tem de lhe proporcionar condições para ter uma vida boa, a melhor possível, nem que tenha de trabalhar mais ou melhor. Por isso, na minha opinião, o argumento das "condições" falha de início na maioria dos casos. Infelizmente há situações excepcionais, às quais se aplicam os dois pontos anteriores.

 

Em jeito de conclusão, digo apenas que há que ter muito cuidado com a argumentação tantas vezes falaciosa que é utilizada. Um argumento que parece tão "bom" para os fracos e oprimidos vem apenas criar a tirania de duas pessoas decidirem sobre a vida ou não-vida de outra.

A série ainda não acabou, hão-de vir mais textos.
 


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