A máfia da blogosfera
23
Jun 08
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 10:39link do post


 

O Símbolo no Jovem Nietzsche[1]
 
 
 

«[...] Habita a Razão na identidade bem composta
ou na desleixada contradição? [...] »
In, A Sombra dos Momentos Felizes.[2]
 
 

1. A filosofia aborda a função simbólica da arte integrada na sua tarefa interpretativa (hermenêutica), num dos períodos do pensamento mais marcados pelo simbolismo e misticismo, referimo-nos ao romantismo alemão, como movimento civilizacional que formou as condições para o aparecimento da teoria nietzschiana.
Centramo-nos no conceito de símbolo tal como o jovem Nietzsche o tratou entre os anos de 1870 a 1873. Onde a transposição é apresentada como a categoria fundamental: “O símbolo é a transposição duma coisa para uma esfera completamente diferente[3] indicando o transporte e a mudança de uma imagem e de um significado para outro âmbito. Sendo apresentado como um elemento essencial da comunicação que relaciona as diferentes grandezas em jogo na arte.
Se bem que, já desde Aristóteles a metáfora seja considerada como a transposição, que permite traduzir os elementos de realidades diferentes. A metáfora identifica ainda a mudança que os latinos classificam como ‘translatio’, o trânsito semântico, isto é, a alteração de significado. Em Nietzsche, o símbolo e a metáfora equivalem-se parcialmente enquanto processos artísticos, que estabelecem relações inventivas na criação da obra de arte.
Estando o símbolo próximo dos fluxos da vida, ele converte a música na categoria mais apropriada para retratar a multiplicidade da existência enquanto mudança e metamorfose. Por isso, o símbolo não é redurtivel à metáfora, pois a música tem um papel essencial na metafísica estética sem se subordinar à dinâmica das imagens.
Nietzsche trata a imaginação como a faculdade que estabelece a unidade entre as diferentes imagens através da invenção de suposições audaciosas. Diz a este respeito em A Visão Dionisiaca do Mundo: “[a fantasia] dá-lhe asas, um poder estranho e ilógico”. Assim estabelece comparações que transpõem os significados para domínios desconhecidos, como acontece com o uso da máscara, a qual em simultâneo revela e esconde a força da vontade, transfigurando e trocando uma identidade por outra.
Portanto, o símbolo a partir da acção transpositiva e transfigurativa une numa expressão os elementos sensíveis e metafísicos. Entende a mutação da vontade que se esconde e se manifesta na dinâmica natural da força e potência da arte, permitindo entender as suas próprias metamorfoses. Enfim, através da relação dialéctica entre a força e o significado (inerentes ao símbolo) podemos compreender as forças da natureza e o modo como estas transitam para a arte.

2. Ao investigar a origem do símbolo na força matricial que o sustenta, Nietzsche detecta que existe um fundo inconsciente. No plano da construção simbólica, o inconsciente está presente como um fundo orgânico ‘sapiencial’, que é necessário tornar consciente. Apesar disso, não existe para ele uma ponte segura para a transposição deste elemento para aquele. Pois o nível inconsciente não se deixa submeter aos princípios formais da lógica, que se apresetam como a panaceia onde se esconde a fragilidade do racionalismo abstracto.
Em contrapartida, Nietzsche considera que os impulsos cegos do organismo são transpostos de modo simbólico, primeiramente para as vivências sentimentais e depois para as actividades culturais; ou seja, o inconsciente é a fonte energética do processo simbólico. Identifica ele nessa potência subterrânea uma torrente que atravessa os sentimentos, que se constituem como referenciais semânticos com a capacidade de produzirem novos símbolos. Isto deve-se ao facto do sentimento traduzir o sentido interno, que percebe e orienta a intenção do instinto. Na perspectiva do nosso filósofo, todo este processo é indirectamente controlado pela vontade.
E, como se sabe, a categoria da vontade no jovem Nietzsche é claramente influenciada pela filosofia de Schopenhauer. Com efeito, ambos os filósofos concebem o ser e o mundo como entidades dinâmicas, pensando que o mundo é uma representação e manifestação da vontade.
Implicitamente, a noção de génio aparece aqui como a entidade “subjectiva” que sente a força da vontade a pensar com ele acerca da produção das novas formas; o que significa que o génio é o culminar dessa orgânica da vontade, procurando indirectamente dominar a ‘Força da Vida’, para a partir desse fundo inconsciente poder criar as formas simbólicas, as formas míticas, as formas poéticas.

3. No desenvolvimento de tal aspecto, o mito e a arte desempenham uma função simbólica acrescida, na medida em que Nietzsche os utiliza, altera e recria como narrativas e ilustrações do seu próprio modo de pensar. Logo, ao entender o que é essencial no pensamento deste filósofo, convertemo-nos em intérpretes dos seus mitos e dos respectivos símbolos artísticos.
No entanto, se já vimos como nascem os símbolos, agora convém observar como é que eles desaparecem. No prosseguimento dos românticos, o jovem Nietzsche critica a ausência das crenças míticas no que se refere à modernidade, revelando a decadência que é provocada pela luminosidade racional, a qual tudo quer explicar e desvendar, banindo o espaço da incerteza, da dúvida e do espanto. O mesmo é dizer que, o ‘Iluminismo’ [‘Aufklärung’] ao projectar uma compreensão das crenças, dos sentimentos e dos símbolos acaba por os destruir.
Na perspectiva de Nietzsche, o desaparecimento dos símbolos míticos leva à uniformização mental e à falência da civilização moderna que “perdeu a pátria mítica”,[4] por se ter desenraizado culturalmente das forças criadoras da vida.
Ao diagnosticar este ambiente de decadência, Nietzsche considera, no entanto, a possibilidade duma regeneração por meio do retorno nostálgico ao mítico, a partir de um diálogo vivo entre a música e a filosofia. Tudo isto porque a música é a área cultural em que os símbolos ainda vivem, constituindo-se assim como o centro regenerador da criação e do pensamento.
Aqui recorre-se à inspiração de Wagner, na medida em que este ousou pensar por meio de acontecimentos visíveis e sensíveis, através de um acentuado envolvimento mítico. Nietzsche considera que em Tristão e Isolda e na trilogia do Anel dos Nibelungos encontramos um género de narrativa dramática que desenvolve as ideias metafísicas sob a forma simbólica. A música constitui desta forma a nova inteligibilidade do pensamento sem negar a sensibilidade, permitindo reflectir sobre a arte a partir dela mesma. Pensa Nietzsche que a música de Wagner é um mote para a reflexão, possibilitando uma compreensão metafísica mais elevada do que qualquer filosofia já conseguiu.
Como corolário disto, Nietzsche considera que a música é o espírito que origina a obra de arte trágica, participando na génese do coro (que é o elemento da união mítica entre a música e a palavra). Deste modo, o mito é o elemento comum que permite estabelecer a mediação entre a tragédia grega e o drama musical wagneriano.
Posto isto, pretende Nietzsche uma fundamentação mais recuada, procurando na Grécia Arcaica as condições ideais da formação dos mitos da tragédia; é neste sentido que, propomos esclarecer sumariamente um dos mitos a que Nietzsche mais recorre. Trata-se com efeito da história de Édipo, que é o símbolo dionisíaco do homem trágico, encontrando-se em luta e sofrimento face à interpretação do seu destino. Essa figura mítica é concebida por Nietzsche de modo ambivalente, considerando que Édipo é uma máscara do sofrimento dionisíaco, mas também é o “símbolo da ciência” por interpretar os mistérios mais profundos da natureza humana.
Notámos que, Édipo escuta vatícinios horríveis acerca de si próprio; no entanto, à medida que se vai descobrindo, também o seu destino irracional é realizado. Este herói interpretou o enigma da Esfinge, e, ao revelar-lhe o segredo desmistificou-a, matando-a com as armas da razão. No fundo, Édipo representa a união do pensamento mítico com a emergência de uma reflexão simbólica e filosófica, por se apresentar como o intérprete e decifrador dos enigmas. Todavia, apenas aquele que está na posse da ‘ciência’ da interpretação dos símbolos pode decifrar o enigma com verdade. Neste caso, a ‘adivinha’ é apresentada pela Esfinge, que é a figura por excelência da razão enigmática.

4. Em analogia com esta concepção, Nietzsche apresenta Apolo como o símbolo da ilusão, do sonho e também da adivinhação. Torna-se deste modo evidente que Apolo se identifica com Édipo, por este herói e aquele deus partilharem uma faculdade oculta. Já na mitologia grega se relatava que Apolo era o deus do oráculo, que detinha os poderes de adivinhar o futuro. Com efeito, ele representava uma modalidade da razão que tinha por finalidade decifrar os mistérios. Ao investigar este aspecto, Giorgio Colli destacou que: “o enigma indica a origem da razão”,[5] a qual é mais misteriosa do que a racionalidade filosófica desejaria, uma vez que vem marcada por um conflito interno quase comparável ao da loucura.
Em contraposição a Apolo, Nietzsche aborda a figura de Dionisos como o símbolo dilecto do seu próprio modo de pensar filosófico e estético. Através de Dionisos o filósofo trágico representa o êxtase da embriaguez, o excesso, a criatividade, o movimento do eterno retorno, a paixão sexual e as forças naturais da vontade. Pretende Nietzsche compreender as forças que estão na origem dos símbolos e das obras de arte, presentando o dionisíaco e o apolíneo como paradigmas da relação dialéctica de luta e de união dos opostos. Procura dar respostas às confrontações entre as entidades polarizadas, tanto no plano natural, como no plano simbólico e metafísico. Deste modo, o conflito retrata a dissonância e o sofrimento tal como é abordado na obra trágica.
Teve Nietzsche a intuição de que na arte existe a comunicabilidade entre os diferentes níveis da realidade, descrevendo-os através da transposição da linguagem não figurativa (dionisíaca) para a linguagem figurativa (apolínea). Esses elementos diversos ora se unem, ora entram em litígio estimulando a produção das novas obras. De facto, o acto criador espelha e perpetua o conflito – Dionisos avança com a força desmedida, que Apolo equilibra através do saber configurador. A tragédia ática é precisamente o resultado dessa conciliação entre essas forças antagónicas. Diz Nietzsche em O Nascimento da Tragédia:

“Assim, a difícil relação entre o apolíneo e o dionisíaco na tragédia poderia realmente ser simbolizada através de uma aliança fraterna entre as duas divindades: Dionisos fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, no fim, fala a linguagem de Dionisos: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da arte em geral”.[6]

Verifica Nietzsche que existe na tragédia uma forma de criatividade que leva à harmonização das duas figuras simbólicas, de tal modo que, as relações complexas dos princípios apolíneo e dionisíaco podem ser traduzidas numa aliança de recíprocas conversões linguísticas, que identificam a comunicação ontológica e estética. Enfim, este processo ‘dialéctico’ representa a transposição criativa: onde a vontade informe e dionisíaca se manifesta na linguagem da forma teórica apolínea, tornando assim fecundo o casamento entre estes princípios opostos. Nietzsche sublinha que a conciliação instintiva dos contrários se gera nos abismos da razão inconsciente, revelando assim uma cisão ontológica, que no plano biológico é traduzido pela luta e atracção entre os sexos.
Em suma, Nietzsche critica a racionalidade abstracta, mas em contrapartida, defende uma racionalidade que comporta as forças da vontade na sua transformação e contradição. De facto, trata-se de uma razão viva que é percorrida e animada pelos símbolos criadores da natureza, do mito e da arte. O que significa que, o problema do símbolo traduz as diferentes formas da razão orgânica se apresentar e comunicar, pois através do processo transpositivo ela estabelece a unidade no seio da metafísica estética.
Enfim, Nietzsche pretendeu desenvolver um pensamento ao serviço da renovação civilizacional. Considerando que o símbolo morre se não desenvolve a capacidade da constante criação dos seus significados. Daí o filósofo da tragédia ter sido o arauto da renovação que ainda está em curso, criticando na modernidade a desvitalização e a morte dos genuínos significados simbólicos.


[1] Este artigo sintetisa a minha dissertação de mestrado: A Natureza e Função do símbolo na Metafísica Estética do Jovem Nietzsche., apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2000.
[2] Carlos Alfredo do Couto Amaral, A Sombra dos Momentos Felizes, Lisboa, Edições Colibri, 2000, p. 62 [obra poética].
[3] NIETZSCHE, Fragmento Postumo, Vol. 7, frag. 3[20].
[4] NIETZSCHE, Nascimento da Tragédia, Lisboa, Relógio D’Água, 1997, Cap. 23, p. 161.
[5] Giorgio COLLI, Après Nietzsche, Montpellier, Éditions de L’Échat, 1987, p. 36.
[6]NIETZSCHE, Nascimento da Tragédia, Lisboa, Relógio D’Água, 1997, cap. 21, pp. 139-140.

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