A máfia da blogosfera
17
Jul 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 17:54link do post | comentar

O Miguel Vale de Almeida conseguiu inspirar-me a fazer algo parecido a este exercício. Provavelmente dirão que sou bota-abaixista, esta nova pérola da língua camoniana que o vai sendo cada vez menos.

Ao contrário do Miguel, não consigo, por muito que me esforce, ver em José Sócrates o bom político que ali é retratado. Temos em cima da mesa dois políticos que já exerceram funções: uma durante dois anos e num ministério particular – pelo que dificilmente poderá ser responsabilizada pelo trabalho de todo o governo – e outro que governou durante quatro anos e meio e, tendo por inerência do cargo a responsabilidade de todas as decisões tomadas, só assumiu as convenientes.
Não consigo confiar em Sócrates para continuar por mais um mandato por diversas razões que poderia separar em dois grandes grupos: as políticas e o político.
Começo pelo político. Sócrates representa tudo aquilo que abomino num Estado democrático: a presunção de saber mais que todos, própria dos grandes ditadores e oportunamente desmontada por Popper na grandiosa Sociedade Aberta. A má relação com a livre expressão de ideias e opiniões, tomando tudo como ataque pessoal quando se trata de combate político puro e duro. A pose e a superfície em detrimento da substância: de Sócrates não lhe sabemos uma ideia própria, apenas lembramos com um sorriso as citações inúteis de filósofos obscuros do país vizinho. A falta de sentido de Estado, julgando que o país é uma quinta do PS, brincando com o Orçamento de Estado, fazendo contabilidades que não lembrariam a ninguém, para poder anunciar grandiosos pacotes de nada. E, por fim, o constante lavar de mãos, atirando a responsabilidade das políticas impopulares para os outros, tomando a liberdade de, por oposição, chamar a si a responsabilidade de anunciar as medidas mais populares.
Tratado o político e a sua forma de estar, vamos às políticas. Tivemos em José Sócrates e na sua ministra da Educação o perfeito exemplo do que está escrito em cima. Foi tudo mal feito – não julgo necessário explicar o quê em particular, mas se necessário for, far-se-á novo post – e não houve a humildade democrática para consultar os outros partidos, recolher opiniões e sensibilidades, auscultar quem entende e quem obteve, também, votos do povo. Ao nível das finanças públicas, houve uma consolidação gelatinosa, toda feita aumentando os impostos e nunca baixando as despesas do Estado. Temos um Estado que nos rouba metade da riqueza que criamos. E, ainda por cima, nos endivida a nós, aos nossos filhos e aos nossos netos. Tudo isto para, agora, vir fazer um esbanjamento irresponsável e irreflectido, principalmente nesta fase em que tudo tem de ser tão bem pensado. Ao nível dos direitos civis, deixou tudo a desejar: aprovou a inaceitável lei da paridade que condiciona o voto do povo e interfere directamente com matérias da responsabilidade dos partidos, transformando as mulheres em arma de arremesso político. Foi também José Sócrates que, com um referendo não vinculativo, fez aprovar a legalização do aborto em Portugal, deixando milhares de crianças por nascer apenas para se mascarar de progressista. Foi o seu progressismo tarado. No progressismo sério falhou também: não avançou com a eutanásia nem tão pouco deixou aprovar o casamento entre homossexuais proposto pelos outros partidos. Já para não falar da questão das drogas que se manteve igual. Foi também nesta legislatura que se fez aprovar duas leis inaceitáveis numa sociedade livre: a proibição do fumo em estabelecimentos públicos e a proibição de os homens homossexuais doarem sangue. Por fim, Sócrates representa ainda a hipocrisia de ter brincado aos políticos com um assunto tão sério como a guerra. Na oposição gritava contra as intervenções no Iraque e no Afeganistão. Estando no poder, deixou para os últimos meses de mandato a retirada do primeiro e reforçou a intervenção no segundo.
José Sócrates, para quem olhei com muito bons olhos nos primeiros anos, tornou-se isto. Representa, para mim, isto. É para mim insuportável a ideia de viver mais quatro anos nesta asfixia, nesta intolerância, num país dominado por um homem que se julga todo poderoso. E, às vezes, penso que José Sócrates é uma espécie de Dorian Gray. Enquanto uns lhe vêem a face revelada ao mundo, outros apenas lhe vêem o retrato no sótão. Eu sou um dos que vê o retrato e não presta atenção nenhuma aos caracóis doirados e às joviais feições. Por isto, e ao contrário do Miguel, não apoio José Sócrates nesta corrida.

Na parte das politicas concordo.

Como politico, Sócrates é uma tubarão, sabe onde nadar, atacar quando deve e esconder-se quando lhe interessa.

Não gostamos do estilo, das ideias nem da forma de actuar, mas que é um enorme estratega, mesmo sendo pela negativa, lá isso é.
Daniel João Santos a 17 de Julho de 2009 às 18:23

Honestamente julgo estás a avaliar emotivamente os ultimos anos. A desilusão normalmente conduz a isso.

Honestamente vou gostar de saber como é que vais conseguir defender a politica MFL depois das criticas ao politico Socrates.

Quanto às politicas, que é isso que realmente interessa, julgo que as tuas criticas falham em alguns pontos:

"toda feita aumentando os impostos"

Nop, se fores a ver aumentou foi a eficiência fiscal e salvo erro a base tributária. Existiram aumentos de impostos (o Iva) mas não foi apenas isso que permitiu a consolidação orçamental.

"a inaceitável lei da paridade"

A lei da paridade não é inaceitavel. nem sequer podes dizer que é discriminatória sem incorreres numa inverdade.

"Foi o seu progressismo tarado."

Por que é que, lendo o eu artigo, fico com a impressão de que se o PS tivesse aprovado as medidas que preconizaste a seguir elas deixarima de ser progressismo sério e passariam a progressismo tarado?
Stran a 18 de Julho de 2009 às 00:14

1. Exacto, foi tudo com base na receita. Não houve verdadeiras mudanças na despesa. Mudanças que tornassem a máquina mais eficiente.

2. Já tivemos esta discussão. A lei da paridade é absurda porque impõe aos partidos - organizações privadas - que tenham listas feitas de um especial modo. Porque condiciona o voto dos cidadãos. E porque não percebe que há coisas que não se mudam por decreto...

3. Com isso não brinco Stran. Quando defendo algo do ponto de vista ético não o faço, nunca o faria, com base em tricas partidárias. E já aqui expus longamente os meus argumentos contra aquilo que sou contra e a favor daquilo que sou a favor.

1. A tua ultima frase é um contracenso. se concordas com o que disse então concordas que a maquina se tornou mais eficiente! E eu julgo que esse é o primeiro passo correcto!

2. Temos realmente opiniões contrárias. Para mim deu-me mais opções.

3. Desculpa. Deveria ter ido ler a tua opinião (que já o fiz). Nunca pensei que fosses contra. Irei em breve escrever sobre isso (IVG), depois deixo o link para tu comentares.
Stran a 18 de Julho de 2009 às 13:33

1. Não é contrasenso. Eu é que não me expliquei. Tornou-se mais eficaz na recolha, mas não mais eficiente nos gastos.

2. É um abusozinho, mas acho que as nossas opiniões são irreconciliáveis.

3. Não tem mal. Esperarei por esse artigo.

1. "Tornou-se mais eficaz na recolha..." Mas isto é positivo! pelo menos não percebo a critica a esse ponto.

2. Tens razão.

3. Bem já escrevi o artigo: http://blogdotuga.blogspot.com/2009/07/interrupcao-voluntaria-da-gravidez.html

Se quiseres vai lá. E deixei-te uma pergunta para responderes se quiseres.




Stran a 19 de Julho de 2009 às 01:37

1. Não é negativa a eficácia na recolha. O que é negativo é que não se fez uma reforma do Estado que o fizesse gastar menos.

3. A resposta já está no ar.

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