O Miguel Vale de Almeida conseguiu inspirar-me a fazer algo parecido a este exercício. Provavelmente dirão que sou bota-abaixista, esta nova pérola da língua camoniana que o vai sendo cada vez menos.
Ao contrário do Miguel, não consigo, por muito que me esforce, ver em José Sócrates o bom político que ali é retratado. Temos em cima da mesa dois políticos que já exerceram funções: uma durante dois anos e num ministério particular – pelo que dificilmente poderá ser responsabilizada pelo trabalho de todo o governo – e outro que governou durante quatro anos e meio e, tendo por inerência do cargo a responsabilidade de todas as decisões tomadas, só assumiu as convenientes.
Não consigo confiar em Sócrates para continuar por mais um mandato por diversas razões que poderia separar em dois grandes grupos: as políticas e o político.
Começo pelo político. Sócrates representa tudo aquilo que abomino num Estado democrático: a presunção de saber mais que todos, própria dos grandes ditadores e oportunamente desmontada por Popper na grandiosa Sociedade Aberta. A má relação com a livre expressão de ideias e opiniões, tomando tudo como ataque pessoal quando se trata de combate político puro e duro. A pose e a superfície em detrimento da substância: de Sócrates não lhe sabemos uma ideia própria, apenas lembramos com um sorriso as citações inúteis de filósofos obscuros do país vizinho. A falta de sentido de Estado, julgando que o país é uma quinta do PS, brincando com o Orçamento de Estado, fazendo contabilidades que não lembrariam a ninguém, para poder anunciar grandiosos pacotes de nada. E, por fim, o constante lavar de mãos, atirando a responsabilidade das políticas impopulares para os outros, tomando a liberdade de, por oposição, chamar a si a responsabilidade de anunciar as medidas mais populares.
Tratado o político e a sua forma de estar, vamos às políticas. Tivemos em José Sócrates e na sua ministra da Educação o perfeito exemplo do que está escrito em cima. Foi tudo mal feito – não julgo necessário explicar o quê em particular, mas se necessário for, far-se-á novo post – e não houve a humildade democrática para consultar os outros partidos, recolher opiniões e sensibilidades, auscultar quem entende e quem obteve, também, votos do povo. Ao nível das finanças públicas, houve uma consolidação gelatinosa, toda feita aumentando os impostos e nunca baixando as despesas do Estado. Temos um Estado que nos rouba metade da riqueza que criamos. E, ainda por cima, nos endivida a nós, aos nossos filhos e aos nossos netos. Tudo isto para, agora, vir fazer um esbanjamento irresponsável e irreflectido, principalmente nesta fase em que tudo tem de ser tão bem pensado. Ao nível dos direitos civis, deixou tudo a desejar: aprovou a inaceitável lei da paridade que condiciona o voto do povo e interfere directamente com matérias da responsabilidade dos partidos, transformando as mulheres em arma de arremesso político. Foi também José Sócrates que, com um referendo não vinculativo, fez aprovar a legalização do aborto em Portugal, deixando milhares de crianças por nascer apenas para se mascarar de progressista. Foi o seu progressismo tarado. No progressismo sério falhou também: não avançou com a eutanásia nem tão pouco deixou aprovar o casamento entre homossexuais proposto pelos outros partidos. Já para não falar da questão das drogas que se manteve igual. Foi também nesta legislatura que se fez aprovar duas leis inaceitáveis numa sociedade livre: a proibição do fumo em estabelecimentos públicos e a proibição de os homens homossexuais doarem sangue. Por fim, Sócrates representa ainda a hipocrisia de ter brincado aos políticos com um assunto tão sério como a guerra. Na oposição gritava contra as intervenções no Iraque e no Afeganistão. Estando no poder, deixou para os últimos meses de mandato a retirada do primeiro e reforçou a intervenção no segundo.
José Sócrates, para quem olhei com muito bons olhos nos primeiros anos, tornou-se isto. Representa, para mim, isto. É para mim insuportável a ideia de viver mais quatro anos nesta asfixia, nesta intolerância, num país dominado por um homem que se julga todo poderoso. E, às vezes, penso que José Sócrates é uma espécie de Dorian Gray. Enquanto uns lhe vêem a face revelada ao mundo, outros apenas lhe vêem o retrato no sótão. Eu sou um dos que vê o retrato e não presta atenção nenhuma aos caracóis doirados e às joviais feições. Por isto, e ao contrário do Miguel, não apoio José Sócrates nesta corrida.