A máfia da blogosfera
06
Jul 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 13:15link do post | comentar

Com a história da saída de Maria João Pires, escreveu-se, na blogosfera e não só, imensa coisa. Destaco especialmente o texto do Carlos Guimarães Pinto que foi por de mais contestado por inúmeros blogues, pelo que nem faz sentido nomeá-los. O Carlos Guimarães Pinto cometeu o pecado de olhar para a questão de uma forma objectiva, não se rendendo ao romantismo dominante. Claro que logo a correr vieram os defensores dos bons costumes - que no antigamente se encontravam mais do outro lado da barricada - condenar o Carlos a rezar uns setecentos pai-nossos e outras tantas avé-marias, que sugerir que uma pianista se prostitua, mesmo que seja para efeito estilístico, é heresia descomunal e inaceitável.

Sobre o assunto, com o qual já brinquei um bocadinho, só tenho a dizer que seria interessante saber se aqueles que tanto defendem a Maria João Pires e os restantes artistas portugueses, que nos merecem tanto respeito como os pedreiros ou os mecânicos, alguma vez lhe assistiram a um concerto. Se alguma vez fizeram um donativo para um espectáculo cultural. Se alguma vez tiveram a iniciativa de juntar uma, pequenina que seja, associação de apoio a artistas.

É que chorar pela saída de Maria João Pires, ou pelo desprezo a que é votada nesta nossa terra, é muito bonito. O pior é quando as lágrimas são de crocodilo.


"O Carlos Guimarães Pinto cometeu o pecado de olhar para a questão de uma forma objectiva..."

Chamar alguém de parasita é analisar "objectivamente" uma questão? Julgava que era ofender gratuitamente, mas parece que não...

"que nos merecem tanto respeito como os pedreiros ou os mecânicos"

Ou seja, mais uns parasitas? É isso?

"Claro que logo a correr vieram os defensores dos bons costumes"

Não é uma questão de bons costumes, a verdade é que objectivamente aquele artigo é estupido. Se levarmos o raciocinio ao absurdo ele chamou de parasita basicamente todas as pessoas que recebem dinheiro do estado...

E já agora, insultar é uma arte e aquele artigo é um insulto até a essa arte...
Stran a 6 de Julho de 2009 às 14:52

Stran,

Sim, as palavras não foram as melhores, mas o conteúdo é inatacável.

A análise objectiva prende-se com o facto de, em Portugal, todos estarem de mão estendida e, mais que pedir, exigem apoios do Estado. Foi com os Jogos Olímpicos também, por exemplo.

Não, não são todos parasitas. O que quero dizer é que os artistas, por o serem, não merecem mais respeito que os outros.

A questão do parasitismo não é, por si só, receber do Estado. É ser subsidio-dependente, apenas viver com o bolso alheio. É essa a questão.

"A análise objectiva prende-se com o facto de, em Portugal, todos estarem de mão estendida e, mais que pedir, exigem apoios do Estado."

Ia jurar que há por aí uma teoria qualquer que fala que o interesse próprio só produz coisas espectaculares...

Mas vou ser objectivo quanto àquele artigo: para além do insulto gratuito (e que abrange todos os artistas), que qualquer pessoa, por mais incapacitado mentalmente, poderia proferir, o artigo encerra uma enorme e basica contradição quando ele decidiu utilizar o seu "efeito estilístico". Como tu também referiste a critica é ao facto de "A análise objectiva prende-se com o facto de, em Portugal, todos estarem de mão estendida..." Ou seja mendigar. Ou seja ele acaba por afirmar que mais digno que mendigar é... mendigar!!!

Mas honestamente, vindo d'oinsurgente (um caso tipico de sobrevalorização bloguistica) não me supreende, agora tu "aplaudires" foi para mim uma surpresa.

Além disso julgo que ainda não se fez nenhuma analise séria sobre este assunto. Separando o trigo do joio. Tu próprio afirmas que: "Não, não são todos parasitas" pelo que em vez de partir do pressuposto (falso) que todos são parasitas e desvalorizar todos os apoios à cultura (que em Portugal até são escassos), dever-se-ia analisar qual a eficiência e a melhor estratégia dos mesmos (e já agora os objectivos).

E finalmente quem é mais parasita: os artistas ou nós todos quando beneficiamos da(s) obra(s) de um artista que negligenciámos em vida?
Stran a 6 de Julho de 2009 às 16:47

1. Uma coisa é mendigar, ou seja, pedir aos outros apoio. Outra coisa é parasitar, ou seja, exigir aos outros que nos paguem o que quer que seja. Os filhos são parasitas dos pais (com o consentimento destes últimos). Os mendigos são isso mesmo, mendigos. Quanto à consideração sobre a qualidade do blogue, não subscrevo, mas cada um com a sua opinião :)

2. AhAh. O que eu disse é que os mecânicos não são parasitas. Quanto aos artistas, em Portugal, muito são-no. Repara, a ideia de ter de haver orçamento de Estado para a Cultura é, por si só, absurda. Se as pessoas quiserem mesmo apreciar um concerto, uma exposição, elas vão. Não há direito de um governo nos tirar dinheiro para dar a artistas se nós não quisermos nada com eles. É o Estado educador, portanto...

3. Desculpa-me a sinceridade, mas não acho essa uma pergunta que leve a algum lado.

1. "Parasitas são organismos que vivem em associação com outros aos quais retiram os meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando o organismo hospedeiro, um processo conhecido por parasitismo"

O que é bem diferente da acção dos artistas. Que me constam as "minhas" lombrigas não chegam ao pé de mim a exigir que me parasitem, elas parasitam ponto final. Existem muitos parasitas à volta do sistema democratico (como algumas empresas) os artistas não o são. Ou seja, e mesmo tu deste essa imagem, estamos a falar do acto de mendigar (com mais ou menos força). A lógica do artigo continua irracional...

2. "Quanto aos artistas, em Portugal, muito são-no." Muitos já são diferentes de todos. Além disso fundamentas isso no teu preconceito ou em algo em concreto?
E não fazes nenhuma lógica no teu raciocinio, qu eliminaria muito do que o Estado faz e que é benéfico. E já agora e que tal o Estado deixar de financiar a filosofia? raios se ninguém quer ter nada a ver com a filosofia, porque é que o estado deve fazer algo? ou apoiar investigação fundamental? E já agora a questão não tem a ver com Estado Educador, que concordo que não o deverá ser (e para mim esse é que é o verdadeiro problema), mas sim de ter apoios para iniciativas culturais.

3. Peço que penses no caso da pessoa que te vou nomear e depois penses muito bem na pergunta que te fiz: Fernando Pessoa.

P.S. Olha eu peço-te desculpa por só te responder amanhã sobre o Santana Lopes (já fui buscar os links).
Stran a 6 de Julho de 2009 às 23:17

1. Os artistas não são animais, logo se lhes chamarmos parasitas é sempre figura de estilo - claro que não é levado à letra...

2. Tenho a dizer-te que muitos teatros em Portugal, como o de Almada, só funcionam à conta do Estado, porque senão não funcionariam. O Estado financia a Filosofia? Não fazia ideia... AhAh

3. Stran, esse tipo de consideração não faz sentido. Sim, o Fernando Pessoa foi maltratado. O Picasso morreu rico. Acontece sempre com todos. Para além disso, Fernando Pessoa apenas publicou uma obra em português e foi à conta de um concurso para o qual se inscreveu e no qual ficou em segundo lugar (era a ideia de escrever uma nova epopeia portuguesa). Se queres que te diga, dá-me alguma pena pensar que alguém viveu assim, pouco me importa se era artista. A obra ficou, tal como ficam as obras de todos os outros.

1. O que quis demonstrar com o significado de parasita foi a má utilização dessa figura de estilo. Poder-se-á comparar a muita coisa (sendo mendigar talvez a mais apropriada) mas com parasita é errado.

2. Ok, mas sabes quantas pessoas vão ao teatro, ou se esse teatro está enquadrado noutro contexto de intervenção social? "O Estado financia a Filosofia?" São os privados? parece-me que sem existir estado não existiria nada ligado à filosofia em Portugal. E a investigação fundamental também são os privados que o financiam?

3. "Se queres que te diga, dá-me alguma pena pensar que alguém viveu assim, pouco me importa se era artista."

Pois é um dos motivos pelo qual sou a favor de um Orçamento para a Cultura. Como Pessoa demonstra muito bem, todos nós podemos usufruir da sua obra, todos nós ficamos diferentes e diria melhor ao conhecermos ou sermos tocados pela sua obra, é profundamente ironico ou triste que a unica pessoa que não usufrui da obra de Pessoa tenha sido o próprio Pessoa.

Julgo que a nossa relação com a cultura revela muito de nós enquanto povo, do nosso provincianismo. Aliás e voltando ao artigo, é mesmo isso que ele é, uma ode ao provincianismo português, que olha para a cultura e o tema da cultura como algo desnecessário e prejudicial ao "organismo" que se intitula de sociedade.

Mas como deves já ter apercebido, não sou fã da nossa elite cultural (que à imagem das outras elites é paupérrima), no entanto é profundamente diferente de ser contra um orçamento ou apoio à cultura.
Stran a 7 de Julho de 2009 às 11:44

«"O Estado financia a Filosofia?" São os privados? parece-me que sem existir estado não existiria nada ligado à filosofia em Portugal.»

Vale a pena ler isto:

http://dererummundi.blogspot.com/2007/08/filosofia-no-gera-dinheiro.html
PR a 7 de Julho de 2009 às 15:24

Gostei de ler o artigo. Principalmente a parte da elite aristocrática.

Mas:

1. O artigo não invalida o que disse.

2. Julgo que tão grave como achar que o financiamento do Estado, por ser do estado é benigno é julgar-se que sem financiamento se resolve o quer que seja.

3. Ainda existe uma outra fonte de riqueza (e talvez a mais importante) ligada à filosofia. Falo da Investigação fundamental, que muitas vezes está ligada com questões filosóficas e que tocam todas as ciências. E que levam posteriormente a grandes avanços cientificos. E já agora, mesmo em terras anglosaxonicas também o Estado financia cultura, filosofia, investigação fundamental, etc... Não percebo porque é que nunca vão buscar esses exemplos!
Stran a 7 de Julho de 2009 às 16:48

E já agora, quanto ao financiamento das artes:

"Funding for artists and arts organisations
Arts Council England is responsible for distributing public money from the Government and the National Lottery to artists and arts organisations.

It also provides advice and information, commissions research and forges partnerships that benefit the arts sector."

http://www.culture.gov.uk/what_we_do/arts/3208.aspx


Stran a 7 de Julho de 2009 às 16:53

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