A máfia da blogosfera
12
Jun 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 16:23link do post | comentar

A falta de sentido de Estado dos partidos é, para usar uma expressão do Henrique Raposo, um dos pregos do caixão do regime. Os partidos políticos, e aqui falo essencialmente dos com assento parlamentar que sendo os mesmos há décadas é inútil nomear, que se dizem promotores e defensores aguerridos do bem comum, instrumentalizam esse bem para fins eleitorais de uma forma que, de tão descarada, chega a ser assustadora. Lembremo-nos quando, há uns meses, o casamento entre pessoas do mesmo sexo era algo de muito bom, mas ainda assim o PS votou contra – mais porque a proposta não era sua do que propriamente por não ser o timming. Lembremo-nos, mais recentemente, da questão do Estatuto dos Açores – na primeira votação o PSD absteve-se e depois do veto presidencial passou a ser contra. E até esses quase free lancers, defensores supremos da moral e dos bons costumes, chegam a ser ridículos nas opções – como o Manuel Alegre, que era contra a avaliação dos professores, mas que se recusou a votar favoravelmente o projecto do PSD para lhe colocar termo. Este episódio a que agora assistimos sobre o financiamento dos partidos é uma gota no Oceano e até o Bloco de Esquerda, senhoras e senhores, entrou no sistema ao votar favoravelmente o diploma depois de ter exigido o fim do sigilo bancário. Chama-se coerência, na novilíngua que utilizam. Todos estes exemplos servem para mostrar o quão doente está o sistema: viciado pelo jogo de poder de partidos que mais parecem clubes de futebol a concorrer pelo título. É um sistema em que as mesmas pessoas mudam drasticamente as suas opiniões de acordo com as conveniências eleitorais. É um sistema em que se faz do Diário da República um cartaz de campanha eleitoral, passando para lei os delírios demagógicos e populistas de quem apenas quer cair na graça da populaça. E digo isto apenas em relação à produção de legislação, que é aquilo que nos afecta realmente, porque se quisermos ir um pouco mais além vemos um secretário-geral de um partido dizer num dia que as eleições europeias vão ser «avaliação do Governo mas também a avaliação de uma oposição», para precisamente um mês depois já vir dizer que não, que «Nestas eleições não perguntaram aos portugueses acerca do Governo e do futuro».

Não, não vai ser com o voto obrigatório que se vai resolver o problema. Aliás, impor a obrigatoriedade do voto seria obrigar a população a alinhar-se com este tipo de folclore. Para que isto seja efectivamente resolvido, é necessário que se proceda a uma reforma bastante grande no que respeita à lei do financiamento dos partidos, acabando com a estúpida distribuição de dinheiro dos contribuintes em função do número de votos e fazendo uma profunda reforma na lei eleitoral que permita que concorram ao parlamento movimentos de cidadãos, que permita o voto preferencial se não mesmo o voto personalizado.


E muito bem!

Quer dizer, até á parte do financiamento dos partidos.

muito bem, a preposta para financiamento é?
Daniel João Santos a 12 de Junho de 2009 às 22:17

Financiamento estritamente privado. O financiamento público dos partidos é completamente desprovido de sentido. Claro que se manteriam as obrigações de transparência actuais...

Não achas que este financiamento privado traria mais promiscuidade ainda?

Se assim já em complicado, onde seria colocada a fronteira entre o financiamento e o loby?

Daniel, não sei se conheces a lei, mas os partidos já têm financiamento privado. Têm é o financiamento público por cima. Em relação ao financiamento privado há limites estabelecidos e até acho possível que, numa primeira fase, se mantivessem...

Está bem... e quem define o limite, a fronteira?

Ó Daniel, já está definido. A lei diz que há x de publico e y de privado. Basta que deixemos só o y...

Eu percebi.

A lei diz um coisa. O que quero e interessa saber é se com a privatização dos partidos teríamos finalmente limpeza na vida politica?

Pessoalmente acho que sim. Se um partido for desonesto, não votamos nele. A questão da honestidade tem trazido muitos votos ao Bloco.

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