A máfia da blogosfera
12
Nov 08
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 19:32link do post | comentar
Ministra admite que alterações provoquem "desmotivação" aos professores.

Segundo a nossa digníssima ministra da Educação, as alterações no quotidiano dos professores podem trazer-lhes desmotivação, mas são necessárias à "Escola" - termo interessante este, quando usado no abstracto.
Em primeiro lugar gostaria de fazer uma pequeníssima reflexão sobre aquilo a que chamo "democracia". Felizmente, muito felizmente, já nasci neste período em que, pelo menos se pretende, que o poder esteja nas mãos do povo e por isto não sei viver de outro modo, ou seja, não sei viver assim. O que a ministra da educação está a fazer é simplesmente colocar-se acima do que é a democracia, abafando completamente quem se lhe opõe, dizendo apenas que a oposição é "injustificada". Vergonhoso é que esta atitude venha directamente de um representante da democracia portuguesa, pelos vistos a senhora não compreende a importância do cargo. Ir ao Parlamento dizer apenas que está certa e que todos os outros estão errados é francamente presunçoso, mas dificilmente plausível. Apesar de isto ser possível, ou seja, de existir realmente a possibilidade de Maria de Lurdes Rodrigues ter tido por um qualquer motivo um toque divino que lhe tenha dado a sabedoria que aos outros falta, chegar-lhe-ia mostrar os seus motivos para que todos vissem essa mesma razão. Isto não acontece. Maria de Lurdes Rodrigues, juntamente com o sombrio Valter Lemos, justificam-se e explicam e fazem trinta por uma linha, mas ninguém lhes dá crédito. Aliás, há quem lhes dê crédito: aqueles que pensam "ao menos este governo está a mexer em certas coisas" ou "pelo menos esta ministra está a meter os professores a trabalhar a sério". Para estes que lhes dão crédito, não interessa "como" é que o governo está a mexer nas coisas nem, tão pouco, se essas "mexidas" e se esse "trabalho à séria" são necessários.
Em segundo lugar, a desmotivação é perfeitamente compreensível. Eu penso, francamente, que se se estivesse a fazer justiça, isto é, a fazer as coisas como elas devem ser feitas, haveria protesto (há sempre), mas nunca este sentimento de humilhação presente em todas as escolas deste país. Fale-se com que professor se fale, ele diz-nos simplesmente que se sente humilhado por dar o couro e o cabelo para tentar moldar e fazer alguém os filhos dos outros em troca de uma miséria mensal (que só se torna algo palpável quando os ossos doem e as costas custam a endireitar). A existência de professores de primeira e de segunda, classificação dada com base em critérios, no mínimo, duvidosos - os professores titulares são-no por fazerem tudo menos dar aulas, como por exemplo, participar nas Assembleias de Escola, nos Conselhos Pedagógicos, nas Direcções de Turma e tudo mais - leva a que os que são de segunda se sintam injustiçados e os que são de primeira se sintam solidários. Mas mesmo que tudo isto de criar o topo e a base na classe docente esteja correcto, vêm os problemas decorrentes disto. Os professores titulares, que não foram "avaliados" na sua prática lectiva para o serem, vão avaliar as práticas lectivas dos seus colegas. E os colegas dizem: "não vejo autoridade no professor Zé Manel para me avaliar" e com razão. São colegas. Era o mesmo que o Joãozinho do 8ºB avaliar o Pedrito do 8ºC, ao ir a uma aula do 8ºC ver como é que ele se portava. A haver avaliação, esta tem de ser puramente objectiva, nunca podendo haver lugar a juízos de carácter pessoal, como, por exemplo, questões relacionadas com a concordância em relação ao método de ensino. Vêm ainda as questões mais antigas, das quais já ninguém se lembra: o facto de os professores passarem mais tempo na escola sem benefícios no salário ao fim do mês, através da carrada de aulas de substituição, apoios, planos de recuperação e tudo mais que se inventou e que é muito bom no plano teórico, mas cuja aplicação deixa muito a desejar. Se eu fosse professor não me sentiria só "desmotivado", sentir-me-ia indignado, revoltado, humilhado, com vontade de fugir daquilo que em tempos foi a "Escola". Mas isto sou eu, que pelos vistos, daquilo que a ministra sabe, sei muito pouco.

Eu que também pouco sei, é que com toda esta polémica, com uma boa parte da opinião pública contra os professores, o reflexo já se começa a notar nos alunos. Hoje numa aula de 10º ano, bastaram 3 alunos arrogantezinhos a porem em causa a minha autoridade como professora, para estragarem o resto da aula e prejudicarem os restantes colegas. Como é possível ser-se um bom professor, se: A borucracia é extrema, passamos os dias na escola, que como diz a senhora ministra é necessário, e as aulas preparamo-as quando? Se os alunos deixam de ter respeito pelos professores, arrastados pela falta do mesmo que a nossa sociedade revela pela minha classe, provocada pela infeliz opinião que os nossos governantes transmitem de nós?
Acho que eu própria já nem consigo dizer nada de coerente, sei apenas que estou indignada como a forma que a sra. ministra fala de e com os professores como se fossemos todos atrasados mentais.

Prof. Matemática, Madalena Garcia
Anónimo a 12 de Novembro de 2008 às 20:21

Percebo-a perfeitamente!
Tiago Moreira Ramalho a 12 de Novembro de 2008 às 20:59

Boa noite, bom dia, boa tarde, conforme a hora que me lerem, se tal acontecer.
Eu não sou professor, mas tenho familiares professores e, por isso, estou razoálvelmente a par do que realmente é ser professor. O artido do proprietário deste Blog, está muito bem elaborado, os meus parabéns.
Lamentávelmente, há sempre muita gente a opinar sobre a problemática da Educação, apenas por uma questão de partidarite, de inveja latente neste lusitano povo, ou do sádico gozo de ver uma classe profissional levar porrada, ser espezinhada, humilhada, como se desta forma se resolva algum problema, muito em especial esta delicada actividade de transmitir saberes, formar, educar.......
Quando a povaça de um país trata assim os professores dos seus filhos, fraco futuro desse país, fraco futuros desses filhos.
Só queria acrescentar um esclarecimento, acerca de uma atoarda manipuladora, demagógica, como muitas das que têm sido lançadas através dos microfones ao dispôr do Sr. Primeiro Ministro e da equipa do Ministério da Educação, e que a povaça, uns mais conscientes do que outros, da distorção que veiculam, repetem até à exaustão.
Dizem eles:
Nem todos os professores podem chegar ao topo da carreira, nem todos os professores podem ser TITULARES, pois, tal como no Exécito, nem todos os Oficiais podem chegar a Generais!!!!!
Grande demagogia!! !
É verdade, nem todos os oficiais podem ser Generais, agora, o que não acontece é, existirem Generais Titulares, e outros só Generais!!!!!
Não acontece em qualquer Empresa, para uma mesma categoria profissional, uns serem Profissionais Titulares e, outros, apenas Profissionais!
É esta demagogia que não vejo ser desmontada pelos orgão de comunicação sérios.
Acerca do muito ou pouco trabalho que os professores tenham, como muita gente diz que não fazem nada, etc, etc, apenas queria deixar aqui o meu testemunho: o meu familiar, às vezes, são 22 horas, hora a que qq profissional está a tomar o seu café, a ver TV, falar com os amigos, ou o que muito bem lhe aprouver, o meu familiar, dizia eu, a essa hora, está a receber e-mails, no seu computador - não num Magalhães oferecido - para preparar mais uma fichinha, com corzinhas, com cruzinhas, com merdinhas, desculpem-me o termo, coisas sem valor nenhum, que não acrescerntam nada à formação do aluno, antes pelo contrário, mói a cabeça ao escravo do professor que deveria ocupar o seu tempo, na sua nobre missão: ensinar, formar, educar!
Muito obrigado!
Anónimo a 12 de Novembro de 2008 às 23:37

Tiago é só para dizer que os comentários são quase tão bons como o teu post.
Daniela Major a 13 de Novembro de 2008 às 20:36

Eu diria mesmo que são melhores. Não costumo ter muitos comentários, mas adoro quando têm a qualidade destes : )
Tiago Moreira Ramalho a 13 de Novembro de 2008 às 20:38

"Isto digo eu, que nada sei"

Pois. Mas há quem seja socrático sem ser de nome.

Parabéns pela sua "ignorante" lucidez.
Teresa Antunes a 13 de Novembro de 2008 às 21:48

Obrigado : )
Tiago Moreira Ramalho a 13 de Novembro de 2008 às 21:51

Muito bem! Este afilhado vai longe...Cabeças destas precisam-se. Pensa e tem um espírito lúcido e crítico, não julgando pelas aparências. De facto a maior parte dos "fazedores" de opinião, baseiam-se, apenas, no senso comum.A realidade e a verdade não a conhecem, no entanto, apresentam-se como arautos da verdade pura.Tristes figuras!... Santa ignorância!... Perdoai-lhes Senhor que não sabem o que dizem.Eu, tal como o Filosofo, também digo: "Só sei que nada sei" e porque nada sei busco, incessantemente,o conhecimento para me aperceber depois que a minha ignorância ainda é maior. Só desta forma seremos grandes e esclarecidos!... Muitos se põem em bicos de pés, apregoando ao mundo o quanto têm razão, desconhecendo, a maior parte das vezes, que a sua razão nada mais é do que a incompreensão e a intolerância pela razão dos outros. Nesta questão da educação e, em particular, da luta dos professores os falsos arautos da verdade deveriam passar algum tempo nas escolas para perceberem a razão que aos professores assiste.Os Professores não são autómatos, facilmente manipuláveis por mentes preversas que têm como objectivo, primeiro, aniquilar-lhes a capacidade de pensar e resistir à tirania de um poder autoritário e prepotente. A prova de que o não conseguem está aqui, neste testemunho deixado pelo autor deste blog. Obrigado Afilhado. És o fruto e prova viva do bom trabalho desenvolvido pelos professores que tiveram o privilégio de te ter como aluno. Parabéns pela tua lúcida cabeça.
Anónimo a 15 de Novembro de 2008 às 03:29

É bem verdade que muito do que sou devo aos óptimos professores que tive ao longo da vida. Obrigado por tanto elogio : )
Tiago Moreira Ramalho a 15 de Novembro de 2008 às 08:48

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