A máfia da blogosfera
12
Jan 09
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 10:21link do post | comentar
A questão dos bilhetes grátis da Zon e da queixa do Paulo Branco deu uma certa polémica, principalmente entre o Arrastão e o Insurgente, os "sempre em guerra". Pelos vistos, eu não concordo inteiramente com nenhum, o que é um belo pretexto para fazer um post.
 
Como é sabido, até porque é muito visto nos anúncios da televisão, a Zon e a Lusomundo fazem parte do mesmo grupo empresarial. Ora sucede que a Zon quis fazer uma promoção em que oferecia bilhetes Lusomundo aos clientes (cerca de 40 milhões de bilhetes num ano, segundo o Pedro Sales). À partida não parece haver qualquer problema de substância: uma empresa faz uma promoção para angariar clientes. O problema em tudo isto é que esta "promoção" poderia colocar em causa a concorrência no sector cinematográfico, que, diga-se, já não é muito famosa.
Um liberal que me leia até pode julgar que sou um socialista ou um adepto dessa coisa da social-democracia. Desengane-se. Apesar de o liberal que me lê não ter nada a ver com isso, eu até lhe digo que partilho o seu ideal. Mas o que se esquece muitas vezes é que num mercado livre tem de haver concorrência saudável, porque caso não haja concorrência saudável, o mercado não funciona.
Antes de avançar mais, gostaria de lembrar que a Zon Multimédia, que detém a Zon Lusomundo, foi anteriormente conhecida como PT Multimédia, ou seja, fez parte de uma empresa pública que, por o ser, está no mercado com larga vantagem, vantagem essa causada por imensos anos de apoio estatal que veio distorcer o mercado por completo. Este passado público permite que agora a Zon Lusomundo detenha 70% do mercado cinematográfico.
Vamos agora ao cerne da questão. Porque é que eu acho que a Autoridade da Concorrência fez o que estava certo?
Uma empresa, ao ser de grande dimensão e tendo como concorrentes empresas de pequena dimensão, tem uma arma tanto invejável como condenável: o dumping. Para quem não sabe, dumping é a venda de um produto com um preço inferior ao custo de produção. O problema do dumping não se coloca a pequenas empresas que por falta de capacidade não se lançam para essas aventuras. Este problema coloca-se sim nas grandes empresas que usam esta técnica como forma para destruir os adversários. No limite, a prática de dumping exercida por uma grande empresa líder no seu sector pode levar a uma situação de monopólio, destruíndo-se gradualmente toda a concorrência. Ao criar-se um monopólio, é certa a diminuição da qualidade do produto e o preço exagerado do mesmo - lembremo-nos da PT quando era monopólio. Para além disto, ao monopólio vem associado uma coisa: a falta de permeabilidade do mercado. Novamente para quem não sabe, a permeabilidade do mercado é a facilidade com que qualquer um pode estabelecer-se num determinado mercado. A permeabilidade fica reduzida porquê? Pelo facto de a empresa monopolista poder destruir qualquer adversário que apareça com políticas de preços agressivas: dumping. Vou dar um exemplo que deixei na caixa de comentários do Insurgente:
 
Em Almada, Margem Sul do Tejo, há apenas uma empresa de autocarros - a TST. Vamos agora supor que um aventureiro tinha descoberto que a TST tinha uma falha e havia um percurso muito rentável por explorar. O aventureiro - empreendedor e óptimo empresário - compra então um autocarro e explora esse percurso. A seguir a TST, para além de colocar um autocarro nesse percurso também, faz uma promoção excepcional de bilhetes a a metade do preço para todas as pessoas que façam esse percurso - obviamente vende abaixo do custo de produção, mas como tem outros percursos que dão lucro, o prejuízo dilui-se. O aventureiro, que não tem mais percursos porque ainda não tinha conseguido ter dinheiro para ter mais autocarros, não consegue acompanhar a descida de preços e acaba por ter de sair do mercado.
 
É este o problema fundamental do monopólio: condiciona a entrada e permanência do mercado de empresas concorrentes. É por este limite não ser de todo aceitável que se tem de actuar na base - penso que se deveria actuar ainda mais na base - e não permitir sequer a criação do monopólio, situação possível com a "promoção" da Zon Lusomundo.

 

Ler também: Impressões concorrentes, por Jacinto Bettencourt no 31 da Armada


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