A máfia da blogosfera
24
Set 08
publicado por Tiago Moreira Ramalho, às 15:35link do post | comentar
Uma coisa que me incomoda num governo é quando este não tem uma estratégia. Incomoda-me muito mais ver um país inteiro sem estratégia. E é assim que vai o nosso há mais de trinta anos. Não existem metas, não existem horizontes, não existem ideias. A governação trata-se tão-só da resolução dos problemas do dia-a-dia. Vem um dinheirito da UE? Vamos ali ao centro comercial ver onde o gastar! E assim se gastam largas somas de dinheiro em aeroportos, em estradas, em planos tecnológicos da treta. Assim se manda dinheiro ao lixo. O problema é que nunca passou por S. Bento alguém que soubesse o que devia fazer. Isto surgiu-me entre outras coisas por causa do programa e-escola/e-escolinha.
Há uns meses atrás alguém no Ministério da Educação teve a feliz ideia de criar um programa super inovador que permitisse aos jovens do 10º ano adquirir um computador "low cost" com desconto no serviço de Internet móvel. Na altura pareceu-me bem, no secundário é fundamental a utilização de computador e se o governo conseguia "arranjar" tais preços, porque não? Depois alargou-se o programa a todo o secundário. Nada de mal a dizer, aliás, ser apenas para o 10º ano deixava toda a gente a pensar "porque raio é que os de 11º não podem?". Depois veio o Carnaval. De um momento para o outro, não só o e-escola se tinha alargado ao ensino preparatório como se tinha criado um e-escolinha para o ensino primário. Campanhas de propaganda e divulgação. "Portugal, Portugal, entrámos finalmente no século XXI!".
Eu não sei se a atribuição de tais computadores foi uma coisa boa ou má. A questão é outra. Este programa vai envolver muitos meios que vão ser fornecidos pelo amável contribuinte (directa ou indirectamente, porque o dinheiro da UE vem, pasmem-se, do IVA pago em todos os países europeus, entre mais outras fontes), logo, é muito sério o que se está a fazer. Está a utilizar-se uma larga quantia de dinheiro num projecto e a não gastar essa quantia noutros, o que implica que o primeiro seja melhor que os outros. O grande problema, como sempre, é que ninguém sabe se o projecto é ou não melhor e isto deve-se ao facto de não ter havido a possibilidade de avaliar a medida. Quando o computador estava disponível apenas no secundário, devia ter-se parado por aí, de modo a analisar como é que o sucesso e a aprendizagem evoluíam: "será que os computadores novos vieram melhorar o estudo dos alunos portugueses?" seria a questão a colocar passados alguns anos de e-escola. Se a tal pergunta a resposta fosse "sim", então, avançar-se-ia para uma nova fase, em que o programa se alargaria ao ensino preparatório e por aí em diante. Se a tal pergunta a resposta fosse "não", então, o programa acabava e utilizavam-se os recursos para outras coisas.
Com toda esta história dos computadores só me vejo a pensar, será que a escola pública portuguesa já está boa o suficiente para irmos para esse patamar? Será que já existem nas escolas os "bens essenciais" para nos lançarmos a comprar os "bens supérfluos". Será que faz sentido comprar o perfume sem ter o sabonete?

Tiago,
Ao contrário da maoria dos seus posts não posso concordar com esta sua análise ao programa e-escolinhas. A mim parece-me uma excelente iniciativa de dotar as nossas crianças com uma ferramenta essencial no mundo em que vivemos e que quanto mais cedo estiverem familiarizadas e souberem aproveitar todo o potencial ao dispor melhor. Não me parece correcto termos de esperar alguns anos por uma análise ao programa e-escola que muito provavelmente seria inconclusivo arrastando por um tempo indeterminavel a introdução desta iniciativa. Segundo, ao que sei esta iniciativa será financiada da mesma forma que o programa e-escola, se assim for, a maior parte da factura será paga pelas empresas de telecomunicações ao abrigo dos compromissos assumidos na altura da atribuição das licenças tornando ainda mais razoável/defensável a aplicação destes fundos em produtos tecnologicos.
Joao a 24 de Setembro de 2008 às 16:53

Caro João,
Eu não sei se a iniciativa é boa ou má, aliás, digo exactamente que não sei porque não sei que tipo de resultados posso esperar. Para lhe ser sincero, acho que seria muito mais benéfico dotar as escolas de tais produtos em vez de os dar aos alunos, assim, os alunos poderiam perfeitamente entrar em contacto com as novas tecnologias e sem o dispêndio de dinheiro que existe. Eu sei que estamos na era da tecnologia e tal, mas não sei se é necessário miúdos da primária que ainda não tiveram sequer tempo para aprender a ler tenham um computador. Acha mesmo que com uma educação ainda tão àquem do espectável nos devemos atirar de cabeça para um projecto destes em vez de investir noutras coisas?

abraço,

TMR
Tiago Moreira Ramalho a 24 de Setembro de 2008 às 17:21

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